quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Aos meus amigos: Amarelinho e Felipe.


Sabe qual é o sentido da vida? É aquele que você mesmo faz. Não trarei aqui opiniões sobre como viver ou como agir, apenas gostaria de fazer uma reflexão com vocês. Vejo muitas campanhas de doação de órgãos, doação de sangue, campaha do agasalho, dentre outras que não consigo me lembrar. Vou recordar-lhes uma passagem da minha vida. Espero que não se cansem.

Logo quando recebi a notícia de que teria que me internar , simplesmente ignorei. Achei que seriam só alguns dias. Fiz piadas com todos do hospital . É estranho como a gente demora para perceber a gravidade das situações,bom, pelo menos eu sou assim. Eu não chorei, nem fiquei triste, em compensação os outros à minha volta pareciam estar lidando com um morto. Eu não entendia porque todos eram desanimados, afinal, era apenas um sorinho que ia dar ânsia depois. Mas após fazer a primeira quimioterapia que percebi o quanto o corpo é fraco. Foi o que aconteceu comigo, dias depois, já na terceira quimio eu estava como os outros. Olhava para o teto, mas não conseguia me levantar. Era como se eu tivesse sem força nenhuma, é horrível! O cheiro das coisas fica mais forte, a visão muitas vezes fica lenta e audição tem dia que aumenta, noutros diminui. O pior de tudo ocorre quando você melhora um pouco e o médico vem dizer que não mudou nada, que é necessário repetir o tratamento senão você terá alguns meses de vida. Isso FODE. Ouvir isso fode a vida. Desculpem o termo, mas não tem outra palavra para expressar o que é ouvir essa expressão "meses de vida". Tudo bem, repetiremos o tratamento. Foi o que eu fiz, tive momentos em que pedia para morrer, não aguentava tanta dor, tanto incômodo. Você fica magro, feio, sem cor, sem pêlo nenhum. As pessoas te olham com dó, você precisa daquele maldito aparelho de oxigênio, porque nem força para respirar você tem. Isso é o "bico do corvo" hahahaha. A verdadeira assertiva de "apodrecer em vida", relembrando do digníssimo Agusto dos Anjos e seu humor mórbido.


Tinha um cara que dormia no mesmo quarto que eu no começo, eu o apelidei de "amarelinho" logo quando cheguei, mal sabia que eu também ficaria amarelo. Ele não fez cirurgia de medula porque não encontrou doador compatível, e ele nem quimio fazia mais, ou seja, ele ia morrer. Teve um dia que me disse que tava com medo de morrer. Eu perguntei o por quê, e ele me respondeu emocionado: "Minha mãe iria sofrer, minha irmã também e eu queria ter tido um filho". Nessa hora me faltou palavras para dizer qualquer coisa a ele, foi aí que percebi o tamanho do meu egoísmo. Ele não queria morrer para que sua mãe não sofresse; eu queria morrer para parar de sofrer. E mais, eu tenho um filho, nem nele eu estava pensando. Caí na real nesse dia, mas mandei o Amarelinho dormir e não acordar mais. Foi o que ele fez, morreu silenciosamente , mas morreu preocupado com sua mãe. Até levaram ele para a UTI mas só para fazer uma cena. Eu tava lá, ele morreu ali mesmo, no quarto. Liguei imediatamente para meu filho, e eu caí na besteira de perguntar se ele ia ficar triste se eu morresse, o moleque ficou em prantos no telefone, disse que eu não podia ir pro céu. Tá, tudo bem, podem me xingar por ter feito isso, mas sei lá, eu precisava ouvir isso.


A partir desse dia levei o tratamento mais a sério. Certa vez , resolvi passear pelo hospital, para quem me conhece sabe que é complicado eu ficar snetado e quieto. Bom, entrei em vários setores, conversei com vários médicos. Até que cheguei na ala que mais me marcou, a ala das crianças. Passei a analisar, estavam todos felizes, alegres. Alguns tomavam quimio e ao mesmo tempo brincavam com bonecos. Veio um carequinha me chamar para brincar, eu fui, lógico. Cara! Como eles são animados, eles estão internados como eu e tão mil vezes mais felizes!Era isso o que eu pensava naquele momento, além de " que tipo de pessoa eu sou". Claro, tinha dormitórios que você via criança na cama, as que brincavam estavam melhorzinhas. Mas mesmo as que estavam ruins semprem davam um sorriso, elas adoravam visitas. Foi ali que eu conheci o Felipe*, meu amigo de 8 anos! Ele adorava jogar carta comigo, mas eu nunca conseguia deixá-lo ganhar, sei lá, batia um orgulho no meu peito. Ele conversava comigo sobre o tratamento dele, até que ele me mostrou um desenho o qual consistia numa caricatura dele em uma cama, deitado doente, e na outra parte era ele brincando. A mensagem era a seguinte: "Eu estou dodói, mas se você doar sua medula, eu posso brincar de novo no parque". Ele mesmo fazia a campanha de doação dele. Qualquer pessoas que ali chegavam ele corria ver se era algum pretendente doador. Mas nunca era. Vocês acham que isso abalava o menino? Que nada, aquele ali era doidão, tipo eu quando tinha essa idade. Não desanimava, ele pediu pro Papai Noel ano passado uma medula nova, e ele estava certo que iria conseguir. Mas infelizmente o natal passou e não teve medula nova. Esse menininho lutava contra a leucemia há 1 ano e 2 meses, e exatamente hoje, 08/11/2007, fiquei sabendo da notícia da morte dele. Assim como o Amarelinho, o Felipe também não conseguiu doador. Um em cada cem mil pode ter medula compatível com a de um paciente. Mas de que adianta se menos de mil são doadores?

Essa é uma verdade que eu não vejo em lugar nenhum, ninguém vai na TV e pede para que você doe sua medula. Eu, infelizmente não posso nem pensar em doar a minha, porque além de eu ser grupo de risco (devido à várias transfusões de sangue), a minha medula está em tratamento. Mas quando eu estava bom, doava sangue, e era voluntário na medula. Não é nada na hora, primeiro eles tiram teu sangue e depois, caso apareça um paciente que seja compatível, assim ela será doada. Infelizmente muitas pessoas são ignorantes ao ponto de saber que não ficarão doentes por terem doado a medula. Ela se regenerá em dias porque você é uma pessoa saudável. E logo você poderá ver que conseguiu salvar uma vida. Acho que não haveria gratificação melhor do que esta. Abracei esta causa sim, podem me chamar de hipócrita, mas eu estou nesse meio e sei o quanto está sendo difícil. Ninguém se preocupa porque não é com um famoso, ou alguma pessoa próxima. Garanto que se a filha da Xuxa estivesse com leucemia o Brasil inteiro iria doar. E todos sabemos que ninguém é melhor do que ninguém.


Mas não vou ficar aqui ensinando a como não ser egoísta. Não sirvo para lidar com esse tipo de coisa, apenas senti vontade de manifestar meu pensamento. Ví uma comunidade no orkut "doação de medula- hematologia", deve ter milhares de pessoas, mas garanto que umas três dezenas são realmente doadoras, o resto só faz tipo para parecer pessoa boa. Na verdade nunca foram num hospital ver como é difícil. Não que seja uma obrigação, mas as pessoas que perdem o tempo indo e visitando as situações dos hospitais tem uma consciência melhor e não fazem besteiras nas eleições. Tem gente que diz que não gosta de ver criança com câncer, mas o que é isso?


É esconder que o hospital de câncer infantil do Brasil precisa esmolar dinheiro? Que falta remédios para quem faz tratamento quimioterápico? Vocês gostam de ver aquela papagaiada do Big brother, aquela futilidade sem tamanho e não gostam de ver uma criança doente? Querem esmaecer o que? Isso é mentira, vocês não gostam de enxergar a verdade porque vocês sabem que podem ajudar um ser humano, mas não o fazem por pura preguiça. Mas tudo bem, só não se esqueçam que ninguém sabe o dia do amanhã!
Informações sobre doação:

Um abraço bem sacana,

4 comentários:

Anônimo disse...

OI Mano!!!

Hoje mesmo estava conversando com papai e ele tambem esta abracando essa causa, e a maneira que ele achou pra superar a dor!!!!
Eu, apesar de pessoalmente nao ter essa experiencia sem como se sente!!!!

Anônimo disse...

igor, tem como nao ficar encantada com vc, moço??? já li esse post uma 5 vezes!!! não tem como ler isso e não virar adepta da causa, ne????
e vc, por favor, fique bom logo pq estou esperando e contando com isso!!! beijos pra vc!!! má:))

Unknown disse...

amei essa sua campanha e pode ter certeza q eu tbm faço isso.
mas infelizmente todos sao egoistas e têm medo, meu noivo é doador e ele disse q a maior felicidade seria se alguem q ele nunca viu precisasse da medula dele. eu sei q ele ia na hora pq sabe o eu passei. igor te amo muito e contimue assim. nao desista nunca....
bjos

Anônimo disse...

Oi Felipe tudo bem? é a primeira vez que leio seu comentário,e confesso viu que realmente estou encantada com sua força de vontade de viver,saiba tb que estou na fila de tranplante mas de figado,tem vez acho que não vai chegar nunca para mim viver uma vida normal,talvez se eu bebesse ñ teria cirrose,tenho 27 anos e tou aqui esperando um fígado novo para poder construir uma familia sabe,sempre desanimo mas te garanto que vc me deu muitas força com seu depoimento e creio em Deus que sua força de vontade vc vai conseguir abraços carinhosos e continue assim com essa força sua ! Mis.